FortiBleed: o vazamento de credenciais que colocou 75 mil firewalls FortiGate sob risco

Representação de ataque FortiBleed com vazamento de credenciais em firewalls FortiGate conectados globalmente por SSL VPN e internet

Em 17 de junho de 2026, pesquisadores divulgaram um conjunto de dados batizado de FortiBleed, contendo credenciais administrativas e de SSL VPN funcionais de aproximadamente 73.932 URLs de firewalls Fortinet FortiGate, distribuídos por 194 países e abrangendo 21.632 domínios corporativos únicos. O Brasil aparece na 11ª posição entre os países mais afetados, com cerca de 1.737 dispositivos listados, segundo alerta oficial do Centro Integrado de Segurança Cibernética (CISC/gov.br).

O FortiBleed não é uma vulnerabilidade nova no FortiOS, mas sim uma campanha de comprometimento de credenciais em escala industrial, operada há meses contra interfaces de gerenciamento e VPN SSL expostas à internet. Isso significa que metade dos FortiGate expostos à internet operava com interfaces de borda acessíveis e credenciais recicláveis, seguindo dessa forma por meses, sem detecção.

Escala do FortiBleed

A campanha só veio a público porque os operadores deixaram o back-end exposto à internet com directory listing aberto, descoberto inicialmente por Volodymyr “Bob” Diachenko, pesquisador de segurança da Security Discovery. O servidor continha 319 arquivos com o ambiente de trabalho completo do grupo: scanners, scripts de automação, strings de conexão, jobs agendados, histórico de comandos e a base de credenciais validadas. A presença de um arquivo .conf de VPN funcional confirma que os operadores tinham uma lista de senhas crackeadas e acesso vivo a redes corporativas.

A campanha foi atribuída a um grupo de língua russa, mas a atribuição é parcial: as wordlists de password spraying contêm centenas de arquivos nomeados a partir de nomes próprios persas e árabes (pass_ahmad, pass_reza, pass_hossein, pass_mohammad), o que é igualmente compatível com um operador de língua persa atuando ou sourcing credenciais nessa região linguística. Os números reportados são os seguintes:

  • 1,16 bilhão de tentativas de credenciais contra 320.777 alvos FortiGate;
  • 2,1 bilhões de tentativas adicionais contra 163.650 servidores Microsoft SQL Server;
  • 30.791 credenciais funcionais verificadas pela SOCRadar dentro do dataset;
  • Aproximadamente 36 GPUs observadas na infraestrutura de cracking baseada em Hashtopolis, utilizadas para crackeamento offline de hashes.

Infraestrutura da operação de ataque

Diferente do que sugeriam as primeiras divulgações, a operação não dependia de um único cluster dedicado de alta capacidade. Embora alguns relatos tenham associado a campanha a um ambiente com aproximadamente 45 GPUs, os registros recuperados da própria infraestrutura indicam uma arquitetura distribuída, baseada em recursos de GPU alugados sob demanda: 

  • Camada de coordenação: instância do Hashtopolis 0.14.3 acessível em 85.11.187.8:8443, identificada publicamente poucos dias antes da divulgação do caso.
  • Camada de execução: seis workers alugados na plataforma Vast.ai, sendo três com 4 GPUs e três com 8 GPUs, totalizando aproximadamente 36 GPUs efetivamente observadas nos registros analisados. 
  • Automação operacional: o script bot.py, controlado via Telegram, era responsável pela gestão dos trabalhos de cracking e pela distribuição das cargas entre os workers disponíveis. 

O aspecto mais relevante não está na quantidade exata de GPUs utilizada, mas no modelo operacional adotado. A infraestrutura foi construída quase inteiramente com serviços amplamente disponíveis no mercado, sem necessidade de hardware próprio ou investimentos extraordinários. O FortiBleed mostra que campanhas capazes de atingir centenas de milhares de dispositivos podem ser conduzidas com ferramentas públicas, computação sob demanda e automação, reduzindo significativamente o custo operacional desse tipo de atividade.

Fluxo da coleta e exploração de credenciais FortiGate

  1. Varredura massiva da internet em busca de interfaces de gerenciamento FortiGate e endpoints SSL VPN expostos (não exclusivo da Fortinet);
  2. Credential stuffing contra repositórios históricos de credenciais roubadas por infostealers;
  3. Interceptação de hashes de autenticação SSL VPN e crack offline no cluster de GPUs;
  4. Exportação de arquivos de configuração completos dos appliances, permitindo recuperar credenciais sem manter acesso ativo;
  5. Pivotagem para o Active Directory interno, com persistência e movimentação lateral;
  6. Sniffer instalado no próprio firewall, transformando o dispositivo em ponto de escuta que alimenta o ciclo de novas credenciais.

Porque credenciais complexas não foram suficientes

Um achado especialmente desconfortável: muitas das senhas comprometidas eram longas, complexas, com 20+ caracteres, mas apareceram em texto puro no dataset. Elas foram colhidas previamente por infostealers rodando em estações comprometidas. Como resumiu um especialista citado pela Expert Insights: “uma senha complexa que passou por um infostealer protege você tanto quanto ‘password123′”.

Além disso, há também muitas instâncias de reuso de senha: strings como ITAdmin@888, F0rt!n3tS3cur3!, fortiAdmin1qaz2wsx e Admin@123 aparecem em dezenas de organizações sem relação entre si, indicando credenciais distribuídas por MSPs e contratados que reaproveitam padrões.

Quem foi atingido pelo vazamento

A lista de organizações mencionadas no dataset cobre praticamente todos os setores da economia global:

  • Tecnologia e manufatura: Foxconn, Samsung, Siemens, Lenovo, Oracle;
  • Serviços profissionais: PwC, Accenture;
  • Telecom e logística: Comcast, FedEx;
  • Energia e automotivo: Chevron, Mercedes-Benz, Toyota, Sinopec, State Grid;
  • Governo e infraestrutura crítica: milhares de entidades, incluindo um contratado turco de defesa ligado à OTAN, do qual documentos confidenciais teriam sido exfiltrados.

A leitura dessa lista, porém, exige um cuidado maior. A análise forense dos arquivos deixados no servidor exposto mostra que o dataset combina duas camadas de hash com pesos evidenciais completamente diferentes:

  1. Hashes do FortiOS extraídos de configurações exportadas (formatos legacy SHA-256 salgado e o novo PBKDF2), que identificam administradores de firewall mas têm atribuição fraca. Ou seja, frequentemente apontam para o MSP, integrador ou revenda que registrou o equipamento no FortiGuard, não para o dono real. Ativos nessa categoria devem ser investigados. 
  2. Hashes Kerberos pre-auth, capturados por sniffers instalados dentro de redes onde os atacantes já tinham pivotado, esses sim carregando nomes de domínio Active Directory internos da vítima e configurando prova concreta de presença na rede. Ativos nessa categoria devem ser considerados como comprometidos. 

Essa distinção desinfla, mas não anula, o número de manchete. Os “21.632 domínios” amplamente reportados saem na verdade de um script de enriquecimento que conta agrupamentos de realms Kerberos, e boa parte desses “domínios” são realms internos não-roteáveis terminando em .LOCAL, .LAN, .LCL, .CORP, .INT, .YEREL, ou simplesmente strings genéricas como ADMIN, AD e DC, que não podem ser atribuídas a nenhuma organização específica. Cruzando os dados ponta a ponta, sobram 918 organizações com evidência real de tráfego Kerberos capturado de dentro da rede (menos de 5% das atribuições) e 148 comprometimentos confirmados, com hashes Kerberos crackeados e credenciais de AD validadas (0,68% do número original)Nenhuma das marcas famosas citadas acima aparece nessa lista dos 148.

Recorte Brasil

Centro Integrado de Segurança Cibernética (CISC/gov.br) classificou o evento como severidade ALTA, campanha ativa, e direcionou o alerta a órgãos e entidades do SISP que operam Fortinet/FortiGate com interface de gerenciamento ou endpoint SSL VPN acessíveis pela internet, independentemente da versão operante do FortiOS 

Com aproximadamente 1.737 dispositivos brasileiros listados, a recomendação prática é tratar qualquer FortiGate de borda como potencialmente comprometido até prova do contrário. 

Como verificar se você foi afetado pelo vazamento

  • Consultar o look-up tool de divulgação ética da Hudson Rock pelo domínio corporativo;
  • No próprio FortiGate, ir em System > Events e filtrar pela string config no campo de mensagem para identificar exportações de configuração não autorizadas e a conta utilizada;
  • Procurar contas administrativas dormentes criadas em janelas de intrusão anteriores;
  • Auditar e trocar credenciais que sigam os padrões reutilizáveis identificados no dataset (ver tabela de IOCs abaixo);
  • Verificar se há tráfego de saída para qualquer um dos IPs identificados (ver tabela de IOCs abaixo).

IOCs

Indicador  Tipo  Valor 
Open Directory / Hashtopolis  IP  85.11.187.8 
Coleta de credenciais Fortinet  IP  85.11.187.28 
Jump box  IP  193.8.187.2 
Instância Hashtopolis  IP  185.229.26.83 
Instância Hashtopolis  IP  213.169.49.142 
Instância Hashtopolis  IP  38.117.87.37 
Instância Hashtopolis  IP  198.53.64.194 
Instância Hashtopolis  IP  175.155.64.221 
Exportações de config FortiGate  IPs  193.8.186.7, 80.75.212.113, 213.21.239.65, 208.94.246.58, 69.195.129.144 
Senhas reutilizadas em massa  Strings  ITAdmin@888, F0rt!n3tS3cur3!, fortiAdmin1qaz2wsx, Admin@123 

 

Boas práticas e recomendações de segurança

  • Rotacionar imediatamente todas as senhas de VPN SSL e interfaces administrativas Fortinet;
  • Habilitar MFA em todos os acessos administrativos e de VPN;
  • Remover a interface de gerenciamento da internet pública, restringindo a uma VLAN dedicada ou acesso via bastion;
  • Atualizar para FortiOS 7.2.11, 7.4.8, 7.6.1 ou superior para usufruir do hashing PBKDF2, e forçar cada administrador a logar uma vez para acionar o re-hash;
  • Rotacionar credenciais LDAP, RADIUS e service accounts que possam ter sido armazenadas em configurações exportadas;
  • Auditar exportações de configuração nos últimos 60 dias;
  • Validar contas administrativas ativas e dormentes no FortiGate;
  • Investigar sinais de movimentação lateral em Active Directory correlacionados com logins SSL VPN suspeitos;
  • Revisar logs de autenticação em MSSQL expostos. 

Considerações finais 

O FortiBleed é a fotografia do que acontece quando credenciais válidas circulam em escala industrial e o perímetro é tratado como linha de defesa final. Sem zero-day, sem exploit espetacular: bastou paciência, automação e infraestrutura de GPU sob demanda para transformar metade dos FortiGate expostos do planeta em pontos de escuta. 

Os números originais merecem cuidado: o que começou como “21 mil empresas comprometidas” se reduziu a 918 redes com tráfego interno capturado e 148 comprometimentos confirmados; o que NÃO diminui o risco, apenas reposiciona a urgência. O dever de casa para qualquer organização com FortiGate exposto continua o mesmo: tirar o gerenciador da internet, rotacionar credenciais, exigir MFA, atualizar FortiOS e caçar sinais de presença antes que apareçam num próximo dump. 

A pergunta que fica é: sua organização sabe quando foi a última vez que a configuração do seu firewall de borda foi exportada, e por quem? 

 

CDC Security, célula de maturidade em cibersegurança do Grupo Task TI, apoia times de TI e segurança brasileiros na redução de exposições como as evidenciadas pelo FortiBleed, combinando análise de risco e auditoria de segurança para identificar management planes expostos e contas administrativas dormentes, SIEM/SOAR para detectar e responder em tempo real a logins anômalos em VPN SSL e movimentação lateral em Active Directory, plano de resposta a incidentes para reagir rápido quando credenciais válidas caem em datasets públicos, aculturamento em cibersegurança e campanhas de phishing para conter o reaproveitamento de senhas que alimenta infostealers. Tudo entregue de forma prescritiva, com dashboards personalizados e especialistas dedicados, sem que sua empresa precise montar um time interno de segurança. 

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Fontes 

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